"Sensação horrível". Cerca de 50 eurodeputados aparecem em pornografia "deepfake"

"Sensação horrível". Cerca de 50 eurodeputados aparecem em pornografia "deepfake"

Pelo menos 46 eurodeputadas - uma em cada seis - e quatro eurodeputados apareceram em imagens de pornografia "deepfake" gerada por Inteligência Artificial sem o seu consentimento.

RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Yves Herman - Reuters

Um estudo da plataforma alemã Agora Digitale Transformation e liderado pelo investigador Benjamin Shultz, divulgado esta segunda-feira, examinou 200 domínios conhecidos por acolherem pornografia `deepfake` e, pesquisando os nomes de todos os eurodeputados, encontrou 50 casos, 46 deles envolvendo mulheres, de sete dos oito grupos do Parlamento Europeu.

Entre os 50 casos, há material que pode ser acedido diretamente ou que liga os nomes dos eurodeputados a "aplicações de nudismo", mas também conteúdo indexado de páginas retiradas do ar pelos tribunais.

O documento não nomeia nenhum dos eurodeputados afetados, mas alguns, como Lena Schilling, dos Verdes alemães, decidiram tornar públicas as suas experiências.

"Estou tão indignada que preciso de falar sobre isto. Imagine chegar ao trabalho um dia, abrir o portátil e descobrir que há fotografias suas, nua, `online`, fotografias que nunca tirou. Foi o que aconteceu comigo e com muitas outras mulheres. É uma sensação horrível", disse Schilling em conferência de imprensa.

Num outro relatório, a Agora Digitale Transformation explorou também o impacto da pornografia `deepfake` nos membros dos parlamentos nacionais europeus e encontrou 147 casos, 138 deles envolvendo mulheres.

Tanto a eurodeputada como o relatório apontam para o efeito intimidatório que a existência destas imagens pode ter nas mulheres jovens que estão na vida pública, com cerca de 22% das políticas a ponderarem abandonar os seus cargos após sofrerem violência digital, segundo a organização de defesa dos direitos humanos Hate Aid.

"As `deepfakes` sexualizadas não são tanto um novo fenómeno tecnológico, mas antes uma nova ferramenta para um problema antigo: a violência contra as mulheres. As tendências da nossa análise têm as mesmas raízes misóginas do assédio e do `bullying` `offline`", refere.

Os investigadores alertam que, embora a inteligência artificial generativa não tenha criado este fenómeno, tornou a sua produção mais barata e rápida, além de muito mais difícil de detetar.

O relatório sublinha que a legislação europeia sobre a chamada "pornografia `deepfake`" é insuficiente para proteger as vítimas, uma vez que só atua depois de o dano já ter acontecido e depende de as próprias vítimas encontrarem o conteúdo e o denunciarem.

Além disso, salienta que a maioria das obrigações legais "se aplica apenas a grandes plataformas `online`, enquanto a maior parte dos danos ocorre em `sites` pequenos e, muitas vezes, `offshore`".

Vítimas e investigadores estão focados no dia 02 de dezembro, data limite para as plataformas se adaptarem às últimas alterações à lei da inteligência artificial, que proíbe sistemas de IA que geram material de abuso sexual infantil ou criam conteúdo que mostre as partes íntimas de uma pessoa identificável, ou atividades sexualmente explícitas, sem o seu consentimento.

"Não pode haver lacunas nem atrasos", enfatizou Schilling.

c/ Lusa

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